- Evento híbrido organizado pela Ação Comunitária problematizou meritocria, abordou futuros possíveis e transformação
- Sobre sonhos e transformação
- Confira fotos da abertura do Seminário, com o Coro Cênico Retalhos do Amanhecer
“Escola vem do grego scholé, que significa ‘lugar do tempo livre’. É o lugar da criação, de potencializar a vida e não de extenuar a vida. Tem a ver com estarmos juntos para que a vida seja mais potente para todos. Mas a impressão que temos é que entramos na escola cheios de vida e saímos dela cansados”. Lara Sayão abriu o III Seminário Nacional e II Seminário Internacional de Educação e Cuidado com a inquietação da professora que vê crianças de 6 anos cheias de perguntas e adultos pouco questionadores na pós-graduação. Doutoranda em Filosofia da Educação pela UERJ, Lara criticou no dia 10 de maio processos de escolarização pautados pela lógica da fábrica e não da scholé, pela competição e não pela cooperação, por encontros estabelecidos a partir da busca de vantagens e não da busca da essência. O tema de sua mesa era meritocracia, um dos muitos em debate na primeira edição híbrida do seminário, organizado pelo Setor de Ação Comunitária.
Os motivos para o discurso da meritocracia constituir um mito foram expostos por Martha Bohorquez, participante internacional do evento. “O problema é que a realização que as pessoas podem obter não está dada a partir da mesma condição para todos. No contexto educativo e social, as diferenças são muitas, então nem todos terão a oportunidade de, a partir do seu esforço, do seu sacrifício, alcançar posições destacadas”, atestou a coordenadora de Carreira Educacional na Universidad La Salle Bolívia. A fala de Martha remete à chamada “Corrida de privilégios”, muito difundida na Internet. Jovens estão posicionados lado a lado para competir em uma corrida. O início da disputa é antecedido por uma série de declarações feitas pelo homem que ocupa o lugar de juiz. Caso os participantes se identifiquem com elas, precisam avançar antes mesmo da largada. Os demais devem ficar no mesmo lugar. Eis algumas das sentenças: “Dê dois passos à frente quem nunca precisou se preocupar com as três refeições diárias”; “Dê dois passos à frente quem estudou em colégios particulares a vida toda”; “Dê dois passos à frente quem nunca precisou ajudar os pais com as contas de casa”. O resultado do experimento é que muitos dos jovens, majoritariamente brancos, sairiam com vantagens significativas em relação a outros, majoritariamente negros, que não viveram a mesma realidade. Esse cenário, no entanto, muda quando as perguntas passam a levar em conta programas governamentais como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, PROUNI, FIES, além de cotas raciais e sociais para a entrada de estudantes na universidade.
Se é um perigo acreditar que todos podem ser equiparados na busca por uma oportunidade, outro é desconsiderar a diversidade inerente e potente dos alunos, algo mencionado tanto por Martha quanto por Lara. “Mesmo se houvessem iguais condições para todos, a lógica da meritocracia não seria possível pois nossas habilidades nos tornam capazes de formas distintas. As diferenças fazem com que sejamos únicos, irrepetíveis, de forma que cada um tem uma maneira particular de aprender. Na educação, precisamos seguir trabalhando para encontrar em nossos educandos os talentos, e como mestres contribuir para o desenvolvimento deles”, defendeu a docente boliviana parecendo ecoar o que a professora brasileira abordou poucos minutos antes. “Escola não é o lugar para fazer com que as pessoas sejam iguais, pelo contrário; é o lugar da igualdade das inteligências e da potência de vida como princípio. É impossível basear o viver e o educar na competição, porque cada um tem o seu caminho e os caminhos, portanto, não são modelos. Na educação, muitas vezes, caímos no erro de não entender isso. Dizemos ao aluno que ele precisa seguir este caminho porque é o da felicidade. Isso está por trás de trazermos egressos que estão fazendo sucesso, ganhando dinheiro, para conversar com os nossos alunos. E então falamos: ‘Se você estudar muito, chegará aqui’. Quem disse que é isso que eu quero?”, problematizou Lara.
Xará da doutoranda em Filosofia da Educação, Lara Bernardo, integrante do Setor de Ação Comunitária, utilizou a mesma ideia-chave para narrar a atuação do Pré-vestibular Social da Juventude. Criado por ela e pelo amigo Filipi em 2017, o PJU nasceu do sonho de empoderar jovens de Santa Izabel, bairro periférico de São Gonçalo. “Nunca usamos o discurso do mérito com os nossos alunos. Claro que sempre falamos que acompanhar as aulas e fazer a lista de exercícios é importante, mas, por outro lado, sempre lembramos que esses alunos em sua maioria trabalharam o dia inteiro e estão há anos afastados dos estudos. Tudo bem não passarem agora. Conversamos sobre os diferentes caminhos que cada um percorre nessa trajetória”, relatou Lara Bernardo.
A formação no PJU não se baseia em fórmulas prontas. Na aula de Redação, por exemplo, o objetivo não é decorar uma estrutura textual utilizada nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio; antes é ampliar o capital cultural dos estudantes: “Os alunos do PJU nunca saíram do estado, alguns nem da própria cidade, muitos nunca atravessaram a Ponte Rio-Niterói, vários disseram que nunca foram a um museu, a um teatro, a um cinema. Eles vão competir num vestibular que por si só parte de uma ideia muito meritocrática, com pessoas que já viajaram para fora do país, que leram muitos livros e tiveram pais professores”. Nesta corrida desigual, parte atrás a aluna de Lara que está desempregada e acorda 4h30 para vender café na rua. Quando chega em casa, ela precisa preparar os bolos e o café do dia seguinte, fazer a janta e só então assistirá às aulas do pré, de segunda a sexta-feira, às 22h.
Ausência de tempo, ausência de vantagens... A história dessa aluna, no entanto, não é escrita apenas a partir de ausências, o que a escola precisa entender e valorizar. Essa é a defesa de Simone Garrido, professora da casa e também palestrante da mesa de abertura do seminário. “A criança não é uma tábula rasa, muito menos o adulto. Ele já carrega os seus saberes, ele já é, ele já vive. E o que a escola faz? Arranca esses saberes do sujeito. Ele senta na sala de aula com tudo o que construiu na vida, mas sente que tudo o que sabe de nada vale. Isso é cruel”, frisa Simone reiterando as consequências dessa ação: “A escola não dá chance para que o sujeito chegue em sala de aula com sua identidade e se pertença, se aproprie dela. Não à toa, a evasão na alfabetização de adultos é absurda, porque o aluno depois de um dia de trabalho precisa ler um texto sobre o ‘Rato Rui que rói tudo o que vê’. O que isso significa para aquele aluno? Em que isso se relaciona com a sua vida? Não faz sentido para ele”.
A evasão escolar, em qualquer faixa etária, impacta diretamente nos sonhos. Essa problemática foi abordada por Ronald Quintanilha, professor dos cursos de licenciatura do Unilasalle-RJ, na mesa Quem carrega um sonho? Diferentes perspectivas sobre futuros e possibilidades, do segundo dia de seminário. “O abandono é um agravante porque rompe com o sonho. Enquanto o sujeito está na escola e em outros espaços formativos, ele vislumbra possibilidades. Se você não acreditar que é possível mesmo num contexto de negação de direitos, você não consegue. Temos a função social de impulsioná-los a sonhar e a concretizar seus sonhos”, afirmou Ronald. Esse movimento passa por outro necessário: “Hoje estive em uma escola que está enfrentando um problema com um de seus alunos. Meu conselho foi ouvi-lo mais, porque falamos muito pelos alunos, mas os ouvimos pouco. Quando o estudante tem uma resistência com a escola, o que isso significa para ele? Como é essa relação dele com a escola? O que representa para ele? A escuta precisa ser sensível”.
Foi a partir de uma escuta sensível que Margareth Araújo descobriu nos anos 1990 “meninos e meninas, uma turma inteira de 4º ano do Ensino Fundamental, que não tinham sonhos. Eles não conheciam a importância dos sonhos para a transformação de suas vidas. Quem conversa com os nossos jovens sobre sonhar? Jovens que moram em comunidades conflagradas costumam responder: ‘Bom, se eu conseguir viver pra dar uma casa para a minha mãe, está bom’”. Margareth é professora da UFF há mais de duas décadas e criadora do projeto PIPAS, que forma educadores sociais para atuarem em espaços de vulnerabilidade. Em sua segunda participação nos debates a respeito da educação e do cuidado, ela recorreu novamente ao patrono da educação brasileira: “Paulo Freire nos diz: ‘Para mim, é impossível existir sem sonhar. A vida na sua totalidade me ensinou como grande lição que é impossível assumi-la sem risco’. Então, sonhar também é pôr em risco, mas por que não fazer isso? Sonhar é potencialmente revolucionário”.
Frases lidas pela mediadora daquela noite e coordenadora das licenciaturas, Cecilia Guimarães, permitem entender porque sonhar é revolucionário. Cecilia reproduziu a fala de Felipe Lima, estudante de Nova Olinda (CE), e um dos jovens entrevistados para o documentário Nunca me sonharam, de 2017. O filme, dirigido por Cacau Rhoden, reflete sobre o ensino médio público do país percorrendo do sertão do Piauí às comunidades ribeirinhas do Pará em busca da escuta. A escuta desses estudantes, como propunha Ronald Quintanilha. No Centro de Convenções Irmão Amadeu, todos ouviram o que Felipe tinha a dizer cinco anos atrás: “Acho que eles (pais) não acreditavam que o pobre também pudesse ter conhecimento, que pudesse ser inteligente. Para eles, o máximo era terminar o ensino médio e arrumar um emprego: trabalhador de roça, vendedor, alguma coisa desse tipo. Acho que nunca me sonharam sendo um psicólogo, nunca me sonharam sendo professor, nunca me sonharam sendo um médico, não me sonharam. Eles não sonhavam e nunca me ensinaram a sonhar. Tô aprendendo a sonhar”.
A história de Felipe remete ao que Lívia Ribeiro, coordenadora da Ação Comunitária, explicaria no dia seguinte, na mesa Alcançar a utopia: sonhar, transformar e realizar. “Não temos como sonhar com o que não sabemos e com o que não achamos possível. Uma vez uma moça que me ajudava com os trabalhos de casa disse para mim que nunca teria um carro. Eu disse: ‘Bom, começando assim nunca teremos mesmo’. Foi quando ela me disse que isso não era possível para ela. E não era por quê? Porque o mínimo comum aceitável para mim é muito diferente do mínimo comum aceitável para ela. Eu, cuja família sempre teve um carro, embora velhinho, mais no conserto do que fora dele, não conseguia dimensionar aquela resposta. A realidade experimentada é o horizonte da tua utopia, então é preciso ampliar as experiências. Se vocês querem sonhar grande ampliem as suas experiências vividas”, instruía Lívia. Sua fala explica porque Lara Bernardo leva a seus alunos do pré-vestibular social a ampliarem o capital cultural. Mas também está imbuída de quem a 18 anos trabalha com projeto de vida, auxiliando adolescentes e jovens a traçarem um caminho a ser seguido, de forma a desenvolver sonhos e metas em um percurso contínuo.
Engana-se, no entanto, quem pensa que projeto de vida é sobre individualidades apenas. No seminário, Lívia mostrou porque ele precisa perpassar a coletividade. “É muito mais fácil sonhar com coisas só para mim, como uma biblioteca que eu poderia ter lá em casa. É mole sonhar com isso, agora sonha com justiça social, com a paz, com diálogo, com amizade entre os povos, com liberdade religiosa. Talvez fosse melhor dizer que é utopia, porque aí não seria culpa nossa. Mas é culpa nossa. E como descansamos sabendo que tem gente aqui no Pé Pequeno que não tem o que comer? Não podemos sonhar só para nós num retorno ao que é individual”, frisou.
No fim, tudo se resume a encontro, aquele que gera a potência da vida. No fim, tudo se resume a diálogo, abordado pelo professor Emmanuel Andrade de Barros, diretamente de Pernambuco. Assim ele definiu o Seminário de Educação e Cuidado no encerramento do evento: “Como propõe essa mesa nossa, é preciso sonhar e, com um “E” maiúsculo, bem ressaltado, também transformar, E, ainda, realizar. Essas três coisas são indissociáveis. Como professor universitário, eu faço um paralelo entre as três disposições e as três lições institucionais: Ensino, Pesquisa e Extensão. Remeto também ao método utilizado pela ação social católica de ver, julgar e agir. Para mim, neste seminário não estamos no momento nem da utopia (ideia de uma sociedade ideal futura, um lugar idealizado por Thomas More, filósofo do século XVI) nem da retrotopia (esse é o título do livro em que o filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman fala de uma volta ao passado, na era da nostalgia). É aqui uma espécie de topia, um lugar solidário e ativo que é construído por todos com tijolos, cimento, parcerias e solidariedade ativa”.
Por Luiza Gould
Fotos de Adriana Torres
Ascom Unilasalle-RJ